ENTRE MARX E O CANDOMBLÉ:

UMA LEITURA DA DIVERSIDADE ÉTNICA E CULTURAL

NA FICÇÃO DE JORGE AMADO

 

Eduardo de Assis Duarte – UFMG

 

 

Refletir sobre a diversidade étnica e cultural figurada na obra de Jorge Amado não constitui tarefa simples. Em sete décadas de presença na literatura brasileira, o escritor foi-se tornando uma verdadeira instituição à medida que seus livros ocupavam o lugar das grandes narrativas voltadas para a construção da nação ou, mais especificamente, para a nação em seus desvãos e avessos, para o complexo e multifacetado Brasil periférico — tanto urbano quanto rural. “Canonizado” pelo público, ao mesmo tempo que excluído da “alta literatura”, Jorge Amado atravessou o século formulando uma Bahia textual múltipla e heterogênea. A cidade e a terra que emergem de seus romances e, mais do que elas, as próprias tramas, seres e conflitos neles presentes nutrem-se da diferença. Num primeiro momento, essa diferença surge antes de tudo como social, representada enquanto antagonismo econômico, segundo o paradigma da luta de classes. Mais tarde, o horizonte dramático se amplia e passa a privilegiar as relações de gênero e de raça/etnia, já presentes, porém num plano secundário, nos escritos dos anos 30 e 40. Assim, verificando o conjunto dessa ficção, vemos que nela vigora o projeto de fazer a crônica dos oprimidos, ou, para ficarmos nas palavras do autor, “contar a vida do povo”, num esforço de representação que transforma a Bahia em grande metonímia do Brasil.

O engajamento inerente a esse projeto leva à formulação de uma textualidade movida pelas urgências do momento histórico. Já em seu primeiro “romance proletário”, de 1933, o escritor provoca a crítica ao colocar em epígrafe a afirmação de que teria escrito Cacau com um “mínimo de literatura” e um “máximo de honestidade”.[1] Na verdade, o jovem de 21 anos fazia eco à tendência documental vigente em boa parte da produção artística do período, desafiada a se posicionar abertamente em termos políticos. O apego realista às condições de existência dos que estão confinados à base da pirâmide social, não irá impedi-lo, todavia, de apelar sempre à “literatura”, sobretudo nos momentos em que trata de sublimar a capacidade de resistência e, mesmo, o heroísmo dos subalternos, sejam estes vistos pelo ângulo da pobreza material, da cor ou do gênero.

No entanto, se voltarmos nossas preocupações para os turbulentos anos de formação do escritor, veremos que seus escritos iniciais ainda contém traços da discursividade hegemônica à época, sobretudo em termos das construções identitárias de negros e mulatos, apesar da proclamada solidariedade autoral para com estes setores. País do carnaval, por exemplo, contém nítidos resquícios da ideologia eugênica do século XIX e um bom exemplo dessa presença está na Explicação que antecedeu o texto de 1931, posteriormente retirada das edições seguintes:

 

No Norte, terra da promissão, há uma grande confusão de raças e sentimentos. É a formação do povo. E dessa confusão está saindo uma raça doente e indolente.[2]

 

A Explicação do “aprendiz de romancista” de dezoito anos ecoa a doxa novecentista, à época ainda em pleno vigor através da autoridade evocada pelas postulações de Sílvio Romero, Nina Rodrigues, Oliveira Viana, Cassiano Ricardo, Paulo Prado e tantos outros. A representação identitária que emerge de O país do carnaval liga-se aos signos da “confusão”, da “doença” e da “indolência”, deixando visíveis os resquícios do paradigma racial concebido nos termos do colonialismo europeu do século XIX. O primeiro texto de Jorge Amadodialoga com o Retrato do Brasil de Paulo Prado, no qual o escritor paulista endossa os postulados de Taine e Spencer e reverbera contra o “vício de nossas origens mestiças”.[3] No romance, o negro Honório torna-se objeto do desejo da amante do patrão, a loira Julie. Descoberto o adultério, o sexo inter-racial é punido com a expulsão do trabalhador e o confisco de seus parcos bens. Apesar de apontar a injustiça do castigo, o texto limita-se a conferir ao negro uma identidade circunscrita quase que exclusivamente ao físico e ao corpóreo.

A opção socializante posterior a Cacau faz com que a perspectiva de classe opere paulatinamente mudanças na postura amadiana a respeito das identidades culturais afro-descendentes. É um processo lento e complexo, mas palpável, e que desembocará, em escritos posteriores, na defesa da mestiçagem e da cultura afro-baiana. Porém em Jubiabá, de1935, o protagonista Antônio Balduíno ainda tem destacada a força física, que o faz derrotar no boxe o alemão Ergin, “campeão da Europa Central”. Por um lado, o texto polemiza com a ideologia eugênica oriunda do nazismo e faz do personagem o primeiro herói negro de perfil épico do romance brasileiro. Balduíno evolui de “imperador das ruas” e lutador improvisado a compositor de sambas e, mais tarde, líder grevista. Ao final, o personagem usa novamente as mãos, mas agora para acenar amigavelmente ao marinheiro Hans... Balduíno quer fazer “a greve em todos os portos”[4] e insiste que os grandes inimigos dos negros não são os brancos, mas os ricos.

Por outro lado, essa nova postura tem seus desdobramentos. Vemos que o fator econômico revela-se não apenas predominante, mas até mesmo paradigmático, em função do centramento marxista-leninista que orienta a ficcionalização do oprimido. A perspectiva de classe termina obscurecendo a luta dos negros pela manutenção de sua herança cultural. Nesse texto, o narrador destaca a greve no aprendizado do protagonista, em detrimento do culto afro presidido pelo pai-de-santo. Balduíno evolui da mera condição de força de trabalho e de sujeito de uma sexualidade próxima do animalesco, para o papel de líder proletário que tem na greve a sua grande lição de vida. E lamenta que o pai-de-santo Jubiabá, “que sabia tudo (...) ainda não lhe ensinara a greve”.[5]

Essa transformação do personagem parece não ter sido percebida pelo crítico David Brookshaw que, após classificar Jubiabá como “romance picaresco”, denuncia a presença na construção de Balduíno do estereótipo do negro forte, bestial e, ao mesmo tempo, inocente como o “bom escravo” dos tempos coloniais. Para o crítico, Jorge Amado, apesar de “bem intencionado”, tem dificuldade em “escapar do ideal social e estético do branqueamento”.[6]

A leitura de Brookshaw ignora o processo construtivo de Jubiabá como romance de formação. A nosso ver, a inocência e o sensualismo extremado do personagem são destacados ao longo da trama justamente para funcionarem como contraponto ao novo homem que surge ao final com a greve e a descoberta da solidariedade de classe. Ao contrário do que afirma o crítico, a ascensão do negro ao papel de líder grevista e de cidadão consciente da exploração econômica e, mais, seu pertencimento a uma militância que busca internacionalizar a união dos “trabalhadores de todo o mundo” faz com ele ultrapasse as figuras do negro “puro instinto” ou do “negro de alma branca”, consagradas ambas nos estereótipos dominantes no pensamento brasileiro da época.

Após superar seus vínculos com a chamada estética de partido, o escritor desloca mais uma vez o eixo orientador de sua ficção, situando-o para além do paradigma da luta de classes. As posturas vinculadas à construção textual de identidades culturais perdem o cunho fortemente ideológico antes apontado para ganhar foros de maior flexibilidade e tolerância frente às práticas culturais alternativas à dominação branca e cristã estabelecida no Brasil desde a colonização. Amado repete em entrevista a frase que colocara na voz de seu personagem Pedro Archanjo: “meu materialismo não me limita”, afirma o ex-deputado comunista e – ao mesmo tempo – Obá do Candomblé de Mãe Menininha do Gantois. Se lembrarmos que é desse deputado o artigo que estabelece, na Constituição democrática de 1946, a liberdade religiosa no Brasil e o fim das perseguições aos cultos afro-brasileiros, o paradoxo talvez não soe tão gritante.

Os romances Pastores da noite (1964) e Tenda dos milagres (1969) evidenciam essa nova postura. Neles, Amado faz profissão fé da miscigenação, da tolerância étnica e do hibridismo cultural. No primeiro, oferece-nos um padre com tendências mediúnicas, o que propicia o cômico e a ridicularização da discriminação religiosa. No segundo, os alvos são justamente as noções eugênicas oriundas do racialismo de Gobineau, que durante tanto tempo perduraram nas reflexões brasileiras a propósito da questão racial e que são, de certa forma, endossadas em seu escrito da adolescência. Ao contrário da “confusão” assinalada em País do carnaval, a mestiçagem funciona em Tenda dos milagres como bandeira de democrática aceitação da diferença étnica e cultural, logo, de combate à ideologia da segregação entre brancos, negros e mestiços.

Se Antônio Balduíno, de Jubiabá, é inscrito sobretudo como um lutador que evolui dos ringues em praça pública para os piquetes grevistas, Pedro Archanjo, de Tenda dos milagres, cumpre, 35 anos depois, o papel de intelectual afro-descendente identificado à negritude e preocupado não apenas com a aceitação do filho mulato entre os brancos, mas também em deter e refutar cientificamente o repúdio oficial à cultura afro-baiana. Mestre Archanjo não apenas freqüenta e estuda os rituais e suas origens. Estuda também a genealogia das elites locais, para nela detectar as uniões interétnicas e a miscigenação recusada pela prática segregacionista.

Tenda dos milagres enaltece a hibridação cultural operada entre as camadas populares urbanas da Bahia. O Pelourinho é inscrito enquanto “universidade popular” cuja “reitoria” localiza-se na oficina onde trabalham mestre Lídio Corró e Pedro Archanjo. Este último, um bedel da Faculdade de Medicina da Bahia, ousa desafiar a elite pretensamente branca representada pelos catedráticos da Faculdade, em especial pelo racista Nilo Argolo. O protagonista segue o roteiro ascensional que caracteriza o perfil dos heróis amadianos que o antecederam, sejam eles negros como Balduíno, ou brancos, como o Pedro Bala de Capitães da areia. De leitor – e auto-didata – Pedro Archanjo ascende à posição de autor cujos livros serão referência no combate ao racismo e à repressão à cultura afro-brasileira. Pedro Archanjo ridiculariza a pretensa superioridade de Nilo Argolo, tanto do ponto de vista ético quanto intelectual e ainda descobre uma ancestral negra na família do professor.

Tenda dos milagres não apenas enaltece a herança africana presente na cultura popular, mas faz igualmente profissão de fé na miscigenação e na heterodiscursividade cultural, numa atitude próxima, certamente, da postulação da democracia racial brasileira defendida por Gilberto Freyre. Pedro Archanjo, todavia, é um mulato que não aspira ao branqueamento. Apesar da brilhante trajetória do filho engenheiro e casado com uma “branca”, o protagonista de Tenda dos milagres morre pobre como Quincas Berro D’ Água e tantos outros negros e mestiços da ficção amadiana, o que mostra o discernimento autoral quanto à articulação dos fatores raciais e étnicos com os econômicos.

Posto diante do desafio representado pelo “continente negro” da cultura popular brasileira, Jorge Amado oscila. Transita, como vimos, do racialismo do século XIX para o integracionismo marxista dos anos 30, até desaguar na bandeira freyreana da tolerância étnica e cultural ostentada em seus últimos escritos. Entre o deputado comunista e o Obá de Candomblé estende-se, como uma esfinge, a doxa branca, européia, cristã e racista. Tomando de empréstimo o pensamento de Stuart Hall, podemos ver nessa esfinge uma tradição – a tradição do mesmo. Discorrendo sobre os intelectuais afro-descendentes contemporâneos, Hall afirma que o desafio para estes é não apenas pensar a respeito do que “as tradições fizeram de nós, mas o que nós podemos fazer com as tradições”. Entre a tradição recalcadora do outro e a difícil expressão dessa alteridade numa escrita que é “branca”, mas nem sempre ocidental e, menos ainda, cristã, Jorge Amado transita. Com a palavra seus leitores.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

AMADO, Jorge. Cacau. 46 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986.

AMADO, Jorge. Jubiabá. 46 ed. Rio de Janeiro: Record, 1984, p. 298.

APUD TATI, Miécio.Jorge Amado vida e obra. Belo Horizonte: Itatiaia, 1961, p. 35.

BROOKSHAW, David. Raça e cor na literatura brasileira, trad. Marta Kirst. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983, p. 144-145.

PRADO, Paulo. Província & nação, Paulística e Retrato do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, p. 219.



[1] . AMADO, Jorge. Cacau. 46 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986.

[2] APUD TATI, Miécio. Jorge Amado vida e obra. Belo Horizonte: Itatiaia, 1961, p. 35.

[3] PRADO, Paulo. Província & nação, Paulística e Retrato do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, p. 219.

[4] . Idem, ibidem, p. 329

[5] . AMADO, Jorge. Jubiabá. 46 ed. Rio de Janeiro: Record, 1984, p. 298.

[6]  BROOKSHAW, David. Raça e cor na literatura brasileira, trad. Marta Kirst. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983, p. 144-145.